A DITADURA dos tempos modernos… o EGO!

A célebre pintura intitulada “Narciso” de Caravaggio prima pela sua atemporalidade e pelo seu poder didático. Mais do que uma tela com cores antagónicas, que jogam com o contraste entre os tons escuros do cenário global e a luminosidade do perfil que se destaca claramente no centro, a referida obra de arte tem um valor semântico que nos incita a refletir sobre os “flagelos” / as “farpas” da sociedade. Pelo poder da imagem, que, como é sabiamente destacado, vale mais do que mil palavras, realçam-se as consequências nefastas do culto excessivo do “ego”. O espelho, elemento fulcral, assume o papel de “despertador da consciência”. O reflexo que projeto de mim próprio deve ser, de facto, positivo. Contudo, será que nos deveríamos impor limites? Será que há fronteiras que não deveríamos atravessar? Em que medida e em que momento a exaltação de nós próprios nos pode conduzir para as correntes do egocentrismo?

A nível mundial, são várias as situações que exemplificam, de forma brutalmente violenta, as consequências devastadoras da incapacidade de olhar fora de si próprio. As guerras que se alimentam das fraturas geopolíticas, sociais e económicas, bem como as desigualdades no domínio do poder e na repartição dos recursos básicos são exemplos dessa frustrante incapacidade de comunicação com o outro numa perspetiva de procura do bem comum e não individual.

Não precisamos de projetar um olhar tão vasto. Se olharmos ao nosso redor, verificamos que a sociedade está adormecida por esses olhares egocêntricos. Nunca se ouviu falar tanto de “bullying” físico e, o mais acutilante, psicológico. Quantos de nós já vivenciaram uma situação em que se sentiram diminuídos pelo olhar, pelas palavras e pelos gestos dos outros, que projetam nas suas “vítimas” os seus receios, as suas frustrações, a sua carência afetiva e emocional? De facto, a sociedade atual enfrenta uma série de desafios complexos que afetam profundamente o bem-estar coletivo. A banalização da exaltação das vitórias individuais (no campo desportivo e/ ou académico) conduz a ruturas nas relações interpessoais. Quebram-se laços. Isolam-se os indivíduos. Ora, o ser humano é essencialmente social e relacional. Socializar é a base da vida. Sozinhos, fechados no nosso próprio mundo, só somos escravos de nós próprios!

Em suma, a autoconfiança e o autoconhecimento são essenciais ao equilíbrio mental. No entanto, o limiar ténue entre o “self control” e o exacerbo do “ego” podem conduzir-nos a afastar-nos de nós próprios e a perdermo-nos no nosso próprio reflexo. Olhem ao vosso redor!